Um dia destes, enquanto esperava o meu almoço, soube que tinha a meu lado uma pessoa (o Sr. J.), com os mesmos 37 anos que eu, …mas que nunca tinha ido à escola.
Era português (só para não ficarem dúvidas) e já me tinham falado dele (o chefe e mesmo o patrão), não por ser analfabeto (facto que até me tinha sido omitido, mas sim por ser um excelente profissional no seu metier… Pareceu-me, das duas vezes que falei com o Sr. J., que se interessava especialmente pelo meu trabalho, parecendo ser o líder da equipa que integrava, mesmo não sendo o chefe formal, possivelmente porque todos os restantes tinham o 6º ano ou o 7º ano… Mesmo a própria equipa me tinha sido referenciada como “muito boa”, “capazes de trabalhar no limite”…
O que me levou até estas pessoas, era a eventual necessidade deles frequentarem formação profissional querendo eu saber como é que poderíamos entrosar esse processo entre as actividades profissionais e as suas vidas pessoais.
Nas duas vezes que me encontrei com o Sr J., havia documentos (pequenos) para distribuir e, diziam-me os colegas, que só eram precisos 2… o 3º era dispensável.
Nas duas vezes que falei com ele, foi o seu semblante que me intrigou quando a conversa era a papelada que há para ler. Parecia sentir um grande desgosto. Naqueles momentos era o seu maior desgosto, a única coisa que o ocupava por dentro: não ter tido a possibilidade de experimentar o que tantos dizem não gostar, nunca ter ido à escola, não ter na memória uma professora, não se ter portado mal e ser repreendido, não ter chegado a casa com vontade de acordar doente no dia seguinte para não ter de ir à escola, não ter apanhado chuva a caminho da escola. Era o seu maior desgosto e tinha-o claro para ele próprio, assim o expressou com o seu subtil franzir de lábios e olhos, nas duas vezes que estive com ele. Era como se não fosse um ser humano completo…
Acabei por aprofundar a conversa com ele e saber que os seus 3 irmãos (2 raparigas e 1 rapaz mais novo, tinham frequentado a escola, ao contrário dele)… Foi com o seu rosto que me lembrei de um colega meu da escola, o Silvino, que todos (miúdos de 7-8 anos) chamávamos de piolhoso e que ninguém valorizava porque vivia numa quinta algures no vale a 3 quilómetros da aldeia onde eu frequentava a escola primária. O Silvino, para ir à escola, tinha que percorrer esses 3 quilómetros pelo meio dos pinhais para chegar à escola. O Silvino estava sempre calado, (agora) não me lembro de o ouvir falar…
Vou entrar num processo e tentar perceber o que o meu país pode fazer pelo Sr. J..
Na primeira vez que estive com o Sr. J. viajei durante 10 minutos na mesma viatura com um rapazola de 17 anos (colega do Sr J.) a quem também perguntei que escolaridade tinha: “- Tenho o 9º!”… E para saber mais, fui perguntando: “- Então não quiseste continuar na escola?”, ao que me respondeu “- A escola é que não me queria lá a mim”.
muito bom...
ResponderEliminarRui, foi muito interessante perceber um pouco da pessoa que está por detrás do atleta.
ResponderEliminarA vida tem destas coisas. As oportunidades estão mal distribuidas e, quantas vazes, são oferecidas de bandeja a quem não se mostra digno delas, enquanto que outros...
ResponderEliminarabraço
MPaiva
Gostei muito desta tua derivação (off-topic está na moda, definitivamente :))).
ResponderEliminarFelizmente que "Srs.J's" já não há tantos, mas num passado recente fomos pródigos na falta de igualdade de oportunidades.
Hoje há outro problema igualmente grave (entre muitos): a iliteracia. Cada vez mais já não chega saber ler e escrever. Outras formas de analfabetismo vão sendo geradas à medida que a sociedade avança, não sabendo eu em benefício do quê ou de quem.