Um dia depois da 6ª Maratona do Porto, a sensação de realização está a começar a desvanecer-se perante o desejo de trabalho para os próximos desafios. Apesar de continuar imerso em trabalho e prazos para cumprir, só penso na recuperação para voltar aos treinos… (convém que o diga, também já estou contagiado com o Natal, o que me voltou a acontecer desde que fui pai, sendo que se aproxima a repetição desta sensação, o que me deixa ainda mais entusiasmado).
Mas vamos à maratona.
O que antecedeu a maratona:
Dormi bem, acordei bem e tomei um belo pequeno-almoço: cevada (uma grande malga), pão branco com mel (comi mais que o normal sem ficar enfartado). O meu intestino é um relógio e ontem estava certinho… O plano preparado na véspera foi executado quase automaticamente, sem qualquer stress. À saída de casa levava comigo bebida energética e água, para hidratar antes da partida. Tinha um encontro marcado para as 8h, com um primo meu e um colega (eles correriam os 14Km), junto ao Parque da Cidade. Enquanto os esperava, ainda troquei umas palavras com o Mark Velhote, que me pareceu mentalmente forte e descontraído q.b.. Entretanto, o meu primo tinha-se deixado dormir, mas como estava com tempo, nem isso me stressou… Lá apanhei o autocarro e fui para a partida. Foram muitos os bloggers com quem me fui cruzando, cumprimentando, sempre contente por os rever… mas o meu foco já era a maratona. Fiz as “devidas necessidades” e ainda reencontrei um companheiro de parte da Maratona Carlos Lopes de Maio passado, com quem revivi alguns dos momentos que passámos. No meio disto tudo, quando se aproximou o momento de partida, optei por estar mais perto dos companheiros bloggers do que sozinho, mas também não combinei nenhuma estratégia com ninguém, nem era a minha intenção, porque queria estar muito atento ao meu corpo… seria ele a ditar o ritmo a que iria.
Partida…
A maratona:
O primeiro quilómetro foi lento devido a subida mais acentuada da corrida e porque tive que serpentear por entre alguns corredores mais lentos que tinham partido à minha frente. Nada de problemático porque a Avenida da Boavista rapidamente me colocou a um ritmo próximo dos 4.35/Km. Nesta altura comecei a ter um companheiro blogger por perto, o Ricardo (ora um pouco à frente, ora um pouco atrás). Acrescentámos mais algumas impressões sobre as nossas pretensões (já tínhamos conversado antes de partirmos), que estavam entre as 3:30 e as 3:45.Disse-lhe que ele ia ser uma referência para mim, mas a minha intenção era não seguir outros corredores… apenas o meu corpo. E foi depois do Km 6 que o meu corpo me disse que tinha a bexiga cheiinha. Ora bolas! Lá teve de ser, mesmo depois de ter tido o cuidado de a esvaziar antes da partida!!! Não tive dúvidas, valia mais agora que mais tarde porque ainda estava a aquecer… O tempo que perdi, afastou-me do Ricardo até ao fim. Acho que ele nem se apercebeu da minha paragem porque no retorno do edifício transparente ele pareceu ficar surpreendido com o meu atraso. Nada de mais, só tinha que gerir o esforço (pensava para comigo) e não me precipitar em tentar voltar a alcançar o Ricardo. Segui o meu percurso solitário, mas ao Km 10 tinha o meu amigo André à minha espera (de bicicleta), que me daria todo o apoio de que necessitava…
Passei pelos 10 Km com cerca de 48:30h, mas sempre confortável. Depois do Passeio Alegre, e já na companhia do André, passou por mim cerca de 15 corredores (em grupo) que me convidaram a seguir o ritmo deles, que era de 5min/Km. Ainda apanhei boleia por um par de quilómetros, mas, voltou a assolar-me o pensamento da gestão do esforço… e segui o meu ritmo. Ainda demorou bastante tempo a perder de vista este grupo, praticamente só no retorno da Afurada… mas eu ia ao meu ritmo.
A ponte Dom Luís tinha um dos pontos mais excitantes da corrida. Tratava-se de um sítio em que o público poderia acompanhar os amigos e familiares em vários momentos da corrida: aproximadamente aos 14 km, para quem ia para a Afurada; aos 25Km para quem já estava a caminho da Ponte do Freixo; e aos 32 para quem seguiria pelo túnel da Ribeira em direcção à meta. Ora, a festa era enorme, com muito apoio, muita força dada pelos espanhóis que não olhavam a nacionalidades… era claro que eles percebiam que o que eles nos estavam a dar significava muito para nós. Para mim, foi sempre bom passar por este local.
Nesta altura a alimentação à base de gel continuava a seguir o esquema que tinha predefinido (90 a 180 Kcal por cada 5 Km). O meu amigo André passava-me o gel, dava-me bebida energética e fazia-me companhia…
Antes da meia maratona concentrei-me nos companheiros bloggers que seguiam à minha frente, que já vinham da Afurada e aos quais tentei dar um pal
avra de incentivo. O Ricardo, a minha referência, lá ia ligeiramente à minha frente. À meia maratona tinha aproximadamente 1:45h. Estava com um ritmo melhor do que o que esperava… mas estava bastante confortável. A tentação de manter o ritmo de 5min/km assolou-me, mas o pensamento que mais tinha treinado era o da gestão do esforço… e assim fiz, contive-me e um pouco acima desse ritmo e segui para o Freixo. Continuava confortável, mas com o aproximar dos 30 Km perscrutava o meu corpo à procura de “um sinal”. Sento várias pequenas dores e desconfortos na fase inicial, mas tudo tinha desaparecido pouco tempo depois. Continuava confortável. No retorno do Freixo, tinha o António Almeida mesmo atrás de mim. Já tinha dado conta dele lige
iramente atrás nos outros retornos, mas a qualquer momento ele estava ao meu lado. O meu ritmo era um pouco superior aos 5min/km e com o António Almeida chegava aos 29Km. Comecei a achar que “o sinal” estava por aparecer… e decidi seguir o ritmo do António Almeida (não fiz o que tinha previsto, pois tinha planeado abdicar da gestão de esforço aos 30Km se me sentisse forte, mas estava a fazê-lo 1 Km antes).
Entrei nos 30Km com pouco mais de 2:30h. Eram os 30Km mais rápidos que tinha feito. Nunca um treino de 30Km demorou menos que 2:35h, tão pouco nas 2 anteriores maratonas tinha alcançado esse tempo nesta fase da corrida. Mas o melhor, era a força com que me sentia. Ainda me questionei se teria sido a alimentação (até aos 30Km consumi cerca de 600kcal de gel), da chuvinha refrescante (?) … rapidamente voltei para a prova e deixei as explicações. Já próximo do túnel da Ribeira sinto o Almeida com um ligeiro abrandar, mas eu continua confortável. Acabei por me deixar levar pelo meu ritmo até ser alcançado por dois maratonistas que vinham num bom ritmo e que decidi seguir. Não troquei uma palavra com eles, nem era necessário, estávamos ali para o mesmo e juntos conseguíamos mais. Foram a minha companh
ia num ritmo que iria cair aproximada- mente nas 3:32h, mas aos 37,5Km comecei a sentir-me a fraquejar. Deixei seguir estes dois companheiros e fui ficando para trás deles. É certo que nunca foi muito difícil, afinal de contas já estava em plena Rua do Brasil, bem próximo do ponto de encontro com a minha família, no edifício transparente. Fui-me distraindo com essa ideia, não forcei muito, mas já não segui o ritmo forte com que estive nos quilómetros anteriores. Depois do reconfortante encontro com a minha mulher e filho, deixei de ter foco mental e tentei reatar um ritmo forte, mas já não deu para grande coisa. Foi a altura em que mais senti o André a tentar apoiar-me, mas eu estava noutro mundo… (obrigado para ele). Controlei o tempo aos 40Km e aos 41Km e estava convencido que baixava das 3:35h … mas isto são 42Km e...195m e nem sprintei…
3:35:08 foi excelente para mim… Mas, acima de tudo, esta foi a maratona que me deu mais prazer, foi a maratona em que senti ter a corrida controlada, ou melhor, em que aprendi que é possível ter esta corrida minimamente controlada. Há desafios que tenho na minha vida que passam por ter confiança em enfrentar esta distância.
Hoje já tenho essa confiança.
Mas vamos à maratona.
O que antecedeu a maratona:
Dormi bem, acordei bem e tomei um belo pequeno-almoço: cevada (uma grande malga), pão branco com mel (comi mais que o normal sem ficar enfartado). O meu intestino é um relógio e ontem estava certinho… O plano preparado na véspera foi executado quase automaticamente, sem qualquer stress. À saída de casa levava comigo bebida energética e água, para hidratar antes da partida. Tinha um encontro marcado para as 8h, com um primo meu e um colega (eles correriam os 14Km), junto ao Parque da Cidade. Enquanto os esperava, ainda troquei umas palavras com o Mark Velhote, que me pareceu mentalmente forte e descontraído q.b.. Entretanto, o meu primo tinha-se deixado dormir, mas como estava com tempo, nem isso me stressou… Lá apanhei o autocarro e fui para a partida. Foram muitos os bloggers com quem me fui cruzando, cumprimentando, sempre contente por os rever… mas o meu foco já era a maratona. Fiz as “devidas necessidades” e ainda reencontrei um companheiro de parte da Maratona Carlos Lopes de Maio passado, com quem revivi alguns dos momentos que passámos. No meio disto tudo, quando se aproximou o momento de partida, optei por estar mais perto dos companheiros bloggers do que sozinho, mas também não combinei nenhuma estratégia com ninguém, nem era a minha intenção, porque queria estar muito atento ao meu corpo… seria ele a ditar o ritmo a que iria.
Partida…
A maratona:
O primeiro quilómetro foi lento devido a subida mais acentuada da corrida e porque tive que serpentear por entre alguns corredores mais lentos que tinham partido à minha frente. Nada de problemático porque a Avenida da Boavista rapidamente me colocou a um ritmo próximo dos 4.35/Km. Nesta altura comecei a ter um companheiro blogger por perto, o Ricardo (ora um pouco à frente, ora um pouco atrás). Acrescentámos mais algumas impressões sobre as nossas pretensões (já tínhamos conversado antes de partirmos), que estavam entre as 3:30 e as 3:45.Disse-lhe que ele ia ser uma referência para mim, mas a minha intenção era não seguir outros corredores… apenas o meu corpo. E foi depois do Km 6 que o meu corpo me disse que tinha a bexiga cheiinha. Ora bolas! Lá teve de ser, mesmo depois de ter tido o cuidado de a esvaziar antes da partida!!! Não tive dúvidas, valia mais agora que mais tarde porque ainda estava a aquecer… O tempo que perdi, afastou-me do Ricardo até ao fim. Acho que ele nem se apercebeu da minha paragem porque no retorno do edifício transparente ele pareceu ficar surpreendido com o meu atraso. Nada de mais, só tinha que gerir o esforço (pensava para comigo) e não me precipitar em tentar voltar a alcançar o Ricardo. Segui o meu percurso solitário, mas ao Km 10 tinha o meu amigo André à minha espera (de bicicleta), que me daria todo o apoio de que necessitava…
Passei pelos 10 Km com cerca de 48:30h, mas sempre confortável. Depois do Passeio Alegre, e já na companhia do André, passou por mim cerca de 15 corredores (em grupo) que me convidaram a seguir o ritmo deles, que era de 5min/Km. Ainda apanhei boleia por um par de quilómetros, mas, voltou a assolar-me o pensamento da gestão do esforço… e segui o meu ritmo. Ainda demorou bastante tempo a perder de vista este grupo, praticamente só no retorno da Afurada… mas eu ia ao meu ritmo.
A ponte Dom Luís tinha um dos pontos mais excitantes da corrida. Tratava-se de um sítio em que o público poderia acompanhar os amigos e familiares em vários momentos da corrida: aproximadamente aos 14 km, para quem ia para a Afurada; aos 25Km para quem já estava a caminho da Ponte do Freixo; e aos 32 para quem seguiria pelo túnel da Ribeira em direcção à meta. Ora, a festa era enorme, com muito apoio, muita força dada pelos espanhóis que não olhavam a nacionalidades… era claro que eles percebiam que o que eles nos estavam a dar significava muito para nós. Para mim, foi sempre bom passar por este local.
Nesta altura a alimentação à base de gel continuava a seguir o esquema que tinha predefinido (90 a 180 Kcal por cada 5 Km). O meu amigo André passava-me o gel, dava-me bebida energética e fazia-me companhia…
Antes da meia maratona concentrei-me nos companheiros bloggers que seguiam à minha frente, que já vinham da Afurada e aos quais tentei dar um pal
Entrei nos 30Km com pouco mais de 2:30h. Eram os 30Km mais rápidos que tinha feito. Nunca um treino de 30Km demorou menos que 2:35h, tão pouco nas 2 anteriores maratonas tinha alcançado esse tempo nesta fase da corrida. Mas o melhor, era a força com que me sentia. Ainda me questionei se teria sido a alimentação (até aos 30Km consumi cerca de 600kcal de gel), da chuvinha refrescante (?) … rapidamente voltei para a prova e deixei as explicações. Já próximo do túnel da Ribeira sinto o Almeida com um ligeiro abrandar, mas eu continua confortável. Acabei por me deixar levar pelo meu ritmo até ser alcançado por dois maratonistas que vinham num bom ritmo e que decidi seguir. Não troquei uma palavra com eles, nem era necessário, estávamos ali para o mesmo e juntos conseguíamos mais. Foram a minha companh
ia num ritmo que iria cair aproximada- mente nas 3:32h, mas aos 37,5Km comecei a sentir-me a fraquejar. Deixei seguir estes dois companheiros e fui ficando para trás deles. É certo que nunca foi muito difícil, afinal de contas já estava em plena Rua do Brasil, bem próximo do ponto de encontro com a minha família, no edifício transparente. Fui-me distraindo com essa ideia, não forcei muito, mas já não segui o ritmo forte com que estive nos quilómetros anteriores. Depois do reconfortante encontro com a minha mulher e filho, deixei de ter foco mental e tentei reatar um ritmo forte, mas já não deu para grande coisa. Foi a altura em que mais senti o André a tentar apoiar-me, mas eu estava noutro mundo… (obrigado para ele). Controlei o tempo aos 40Km e aos 41Km e estava convencido que baixava das 3:35h … mas isto são 42Km e...195m e nem sprintei…3:35:08 foi excelente para mim… Mas, acima de tudo, esta foi a maratona que me deu mais prazer, foi a maratona em que senti ter a corrida controlada, ou melhor, em que aprendi que é possível ter esta corrida minimamente controlada. Há desafios que tenho na minha vida que passam por ter confiança em enfrentar esta distância.
Hoje já tenho essa confiança.
Companheiro
ResponderEliminarpena que não tive pernas para seguir contigo mas foi-me bem útil ir no teu "rasto", depois lá saltámos (à vontade) o muro (mas qual muro)...
Parabéns mais uma vez e envia-me por favor a foto em que estamos.
Boa recuperação.
Grande abraço.
Rui,
ResponderEliminarEste relato mostra uma capacidade de gestão do esforço notável. Por mais que estejamos mentalizados de que devemos seguir a determinado ritmo, a verdade é que, na prova, acabamos por nos deixar levar por impulsos repentinos, pelo andamento de amigos, etc.
A tua capacidade de autocontrolo foram determinantes para o excelente resultado alcançado e, acima de tudo, para teres terminado a prova em boas condições.
abraço
MPaiva
Então foi isso. o xixizinho...
ResponderEliminarMas foi uma grande Maratona, para todos.
Boa recuperação.
Depois conto o meu relato, agora ando aqui as voltas para ver se meto tudo em dia.
Parabéns pelo magnífico resultado conseguido e também pelos excelentes relatos.
ResponderEliminarCruzei-me consigo e com o António Almeida, vinham já vocês do Freixo.
Dei uma palavra de incentivo ao António. Segundos depois é que me apercebi de que seria o Rui (nunca estive pessoalmente consigo, daí a minha dificuldade em o reconhecer de imediato). Ainda disse "força Rui", mas já não deve ter saído a tempo.
Continuação de bons treinos.
Abraço
José Alberto
Olá Rui,
ResponderEliminarGrande prova enfrentada com confiança e garra. Muitos parabéns pela qualidade do relato que está fenomenal também.
Um grande abraço e obrigado pelas dicas antes da partida!
Abraço
Mark
ps:A tua última frase deixa-me super curioso...vamos ter novidades em breve? :D
Obrigado a todos pelas palavras...
ResponderEliminarOh Velhote! Olha que se não fosse a malta dos blogs (tu também) eu não tinha conseguido isto... são as leituras que faço que me ajudam a compreender melhor o que é correr.
Abraço,
PS: Ainda não é em 2010 que vou enfrentar a "distância"... vem ai um novo filhote e estou convencido que vou ter que reduzir o tempo de treino. Talvez invista, para já, na distância Olímpica... Tenho que ir num ritmo em que o mais importante não passa para segundo plano.
Abraço,
Rui
Excelente prova e excelente tempo, Rui. Mais um Cyber Runner em grande.
ResponderEliminarUm abraço.
Belo relato!
ResponderEliminarvou fazer a meia de lisboa...